Foto: Agência Senado
A decisão hermética do ministro Cristiano Zanin de manter o desembargador Ricardo Rodrigues Cardozo — e por extensão a linha sucessória que privilegia o Judiciário — à frente do comando fluminense, ignorando a recente recomposição da Assembleia Legislativa (Alerj), lança uma sombra de incerteza sobre a autonomia política do estado. Ao reafirmar a permanência de um magistrado no Poder Executivo sob o argumento de segurança jurídica, o Zanin governo RJ consolida uma intervenção branca que ignora a legítima sucessão parlamentar, mesmo após a eleição de Douglas Ruas para a presidência do Legislativo.
O labirinto sucessório e a eleição de Douglas Ruas
O caso ganha contornos de drama institucional quando observamos que a vacância temporária do cargo de governador deveria, por rito constitucional clássico, ser preenchida pelo presidente da Alerj. No entanto, a trajetória política do Rio de Janeiro é marcada por judicializações constantes. O fato concreto é que a eleição de Douglas Ruas para o comando da Assembleia foi vista por muitos como o gatilho automático para a devolução das chaves do Palácio Guanabara ao poder eleito. Zanin, porém, entendeu de forma distinta.
A tese do ministro sustenta que a alternância prematura entre um desembargador e um deputado, no meio de uma interinidade já judicializada, causaria mais instabilidade do que a manutenção do status quo. Historicamente, o Rio de Janeiro enfrenta uma degradação de suas instâncias de controle que frequentemente termina no Supremo Tribunal Federal. Desde o afastamento de governadores anteriores, o estado vive sob uma espécie de curatela institucional do STF.
Uma leitura editorial sobre o ativismo de cautela

A postura de Cristiano Zanin revela o que podemos chamar de ‘ativismo de cautela’. Ao invés de permitir que o fluxo democrático parlamentar retome seu curso natural, o ministro prefere a ‘estabilidade fria’ de um magistrado no comando administrativo. Essa escolha tem repercussões severas: ela esvazia o papel político da Alerj e coloca o Judiciário em uma posição de gestão direta sobre o orçamento e as políticas públicas de um dos estados mais complexos da federação.
Sob minha ótica, essa decisão reflete um medo sistêmico de que a política fluminense, em sua natureza volátil, comprometa acordos de recuperação fiscal ou investigações em curso. É uma intervenção que se justifica pela forma, mas que agride a essência da separação dos poderes. Manter um presidente do Tribunal de Justiça no governo enquanto existe um presidente da Assembleia apto ao cargo é tratar a política local como incapaz de autogoverno.
Implicações e o xadrez político imediato
Para os próximos meses, a manutenção dessa configuração gera os seguintes impactos:
- Paralisia Legislativa: A Alerj tenderá a endurecer o jogo contra o Executivo interino, sentindo-se desprestigiada pela Suprema Corte.
- Gestão Tecnicista: O governo estadual seguirá uma agenda de ‘manutenção’, evitando reformas profundas que dependeriam de capital político que um magistrado não possui.
- Precedente Perigoso: Cria-se uma jurisprudência onde a eleição interna dos legislativos pode ser ignorada pelo STF em prol de uma suposta ordem administrativa.
Conclusão: A democracia sob tutela

A permanência do Judiciário no comando do Rio de Janeiro, chancelada por Zanin, é o atestado de falência da normalidade política fluminense. Não se trata apenas de quem assina o Diário Oficial, mas de quem detém a legitimidade do voto para gerir a coisa pública. Ao priorizar a ‘não alteração’ das decisões anteriores, o STF imobiliza a engrenagem política em um estado que já sofre com vácuos de liderança.
Minha tese final é clara: o Rio de Janeiro não sairá de sua crise crônica enquanto o comando do estado for decidido em gabinetes de Brasília ao invés de ser resolvido no equilíbrio entre seus próprios poderes. A decisão sobre o Zanin governo RJ pode até trazer sossego processual, mas aprofunda o divórcio entre o cidadão e a representatividade política.

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