A cena se repete em consultórios de diversas especialidades: um paciente de sessenta ou setenta anos entra na sala, mas o médico direciona o olhar e as perguntas ao acompanhante mais jovem. Esse apagamento da autonomia é a face mais visível do etarismo no consultório, uma barreira invisível que compromete diagnósticos, negligencia tratamentos e restringe a existência do indivíduo maduro a uma lista de patologias crônicas. O que deveria ser um ambiente de acolhimento transforma-se, não raro, em um palco de infantilização ou completa indiferença perante queixas fundamentais, como o bem-estar emocional e a saúde sexual.
A Anatomia do Preconceito: Além do Estigma da Fragilidade
O conceito de etarismo, ou ageismo, fundamenta-se na criação de estereótipos baseados na idade cronológica. No ambiente clínico, ele se manifesta através da presunção de que o declínio cognitivo e físico é uma fatalidade homogênea. Quando um profissional de saúde ignora a atividade sexual de uma paciente de 70 anos ou descarta dores persistentes como ‘coisas da idade’, ele está violando o princípio básico da medicina personalizada. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que uma em cada duas pessoas no mundo é etarista em relação aos idosos, e a área da saúde é uma das mais afetadas por essa visão reducionista.
Historicamente, a medicina moderna foi estruturada focando na cura de doenças agudas, muitas vezes negligenciando a qualidade de vida prolongada. Com o rápido envelhecimento da população brasileira — processo que o IBGE aponta como acelerado, com a projeção de que em 2060 um quarto da população tenha mais de 65 anos — o sistema de saúde enfrenta o desafio de tratar não apenas o corpo que envelhece, mas o ser humano que permanece ativo, produtivo e desejante. O silenciamento da sexualidade na maturidade é um dos sintomas mais graves deste cenário, resultando em diagnósticos tardios de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), por exemplo, que o médico sequer cogitou investigar devido ao viés de idade.
Um Olhar Crítico: A Medicina Precisa Amadurecer

É urgente reconhecer que o etarismo no consultório é uma forma de violência institucional. A prática de ‘conversar por cima’ do paciente, tratando-o como um objeto de cuidado passivo, retira o protagonismo necessário para a adesão terapêutica. A perspectiva crítica nos obriga a questionar: por que ainda tratamos a longevidade como um fardo econômico ou biológico, em vez de uma conquista civilizatória? A formação médica, frequentemente tecnicista, falha ao não integrar as humanidades e a gerontologia social em suas bases curriculares primárias.
A discriminação gera um ciclo vicioso prejudicial. O paciente, sentindo-se julgado ou ignorado, tende a omitir sintomas importantes ou desiste de buscar ajuda, o que agrava condições que poderiam ser facilmente gerenciadas. A resistência médica em abordar temas como prazer sexual, carreira e projetos futuros com idosos reflete uma sociedade que só valoriza o indivíduo enquanto ele é visto como ‘útil’ pelo prisma do consumo e da produção frenética.
Implicações Práticas e os Caminhos para a Mudança
Para desconstruir essa cultura, é necessário que o setor de saúde adote protocolos de atendimento que priorizem a comunicação direta com o paciente, independentemente da idade. Isso exige tempo — um recurso escasso em modelos de gestão de saúde focados em volume de consultas — e sensibilidade para entender que a saúde é um estado dinâmico.
- Escuta Ativa: O médico deve validar as queixas subjetivas sem atribuí-las automaticamente ao envelhecimento cronológico.
- Educação Continuada: Profissionais de saúde precisam de treinamento específico para identificar seus próprios vieses inconscientes.
- Políticas Públicas: Campanhas que reforcem os direitos do paciente idoso à privacidade e ao consentimento informado durante o atendimento.
Conclusão: Contra a Data de Validade Humana

O combate ao etarismo no consultório não é uma pauta exclusiva dos geriatras, mas um imperativo ético para toda a rede de assistência. Ao confrontar o preconceito, não estamos apenas garantindo um tratamento melhor aos mais velhos de hoje, mas preservando o nosso próprio futuro. A saúde não pode ter data de validade, nem a dignidade de ser ouvido e respeitado em todas as fases da vida.
Minha tese final é que a cura para o etarismo clínico reside na recuperação da humanidade do ato médico: enxergar o paciente antes da sua idade. Se a medicina deseja ser verdadeiramente eficaz no século da longevidade, ela precisa aprender a ouvir o que as vozes maduras têm a dizer sobre seus próprios corpos e desejos. A verdadeira negligência não é o envelhecer, mas o ignorar.
Fonte: G1 – Saúde — https://g1.globo.com/bemestar/blog/longevidade-modo-de-usar/post/2026/04/21/como-enfrentar-o-etarismo-no-consultorio.ghtml. Esta é uma análise editorial baseada em informações públicas.

